

O Jovem Papa (2016)
77%
Avaliação dos usuários
Sua religião é a revolução.
Sinopse
Criado Por:
Paolo Sorrentino
Filipe Manuel Neto
Escrita em 12 de Fevereiro de 2022**Um papa disruptivo e cáustico que vai ser amado e odiado na mesma medida.** Há imensas séries e filmes acerca de papas, da Santa Sé e da Igreja Católica. Muitas são boas. Há séries críticas e cáusticas, e outras simpáticas para com a Igreja, mas sempre cativam um público atraído pela temática sedutora, em que a moral se associa à tradição, ao brilho e pompa e à expectativa de algo escandaloso. Esta série não foge muito a estas regras e apresenta-nos um panorama difícil de imaginar: após a morte de um papa popular e muito querido de todos (que poderia bem ser o actual pontífice), o Conclave, a despeito de todas as manobras de manipulação, escolhe por sucessor um jovem cardeal americano, Lenny Belardo, um protegido de um dos principais candidatos ao sólio papal, o Cardeal Spencer, arcebispo de Nova Iorque. Indiferente ao choque de todos (principalmente do velho cardeal norte-americano, que esperava ser eleito, e do Cardeal Secretário de Estado Voiello, o rosto de uma cúria papal manipuladora e cínica), Lenny aceita e toma o nome de Pio XIII, levando a cabo uma revolução sem paralelo: preferindo não divulgar a sua imagem e manter o menor contacto possível com os fiéis, oculta-se e tenta libertar a Igreja da pressão da opinião pública e da popularidade fácil, ao mesmo tempo que luta com uma cúria desleal, problemas de pedofilia e homossexualidade e os seus próprios demónios e dúvidas interiores. Paolo Sorrentino conseguiu dar-nos um papa verdadeiramente disruptivo: o século XX foi o tempo dos papas “superstar” que arrastam multidões e percorrem o mundo em contacto com os fiéis, usando a sua imagem para espalhar a fé, fazer pontes com outras crenças e combater problemas como a fome, a insegurança e a guerra. Nunca foi tão fácil saber onde está e o que faz o papa, e nunca vimos um papado tão despojado e quase envergonhado da própria riqueza. Sorrentino rompe com isto e dá-nos um Pio XIII que podemos odiar e admirar: ele é narcisista apesar de se esconder, e quer ter uma boa forma física e um aspecto grandioso, não se coibindo de ressuscitar vestes, cerimónias e aparato imperial, como não vemos desde João XXIII, a fim de impor a sua autoridade sobre a Igreja. Nesta série, as (poucas) missas que vemos são em latim, com o celebrante de costas para a assembleia, e o papa nunca sai de Itália. Há um ambiente de surrealismo que se observa na forma como Sorrentino usa temas oníricos como o sonho, a ilusão e a alucinação. À medida que a série vai evoluindo, porém, o director tenta aliviar a pressão e dar uma conclusão amigável e simpática à sua história, o que rompe bastante com o que vinha acontecendo na fase inicial da série, quase a ponto de se contradizer. A somar a este problema, a série carece de uma boa sensação de passagem de tempo: não conseguimos perceber bem se a história decorre ao longo de vários anos ou vários meses. O elenco luxuoso é encabeçado brilhantemente por Jude Law, que encarna perfeitamente o seu papel e consegue ser igualmente detestável e simpático. Diane Keaton também nos surpreende e encanta como Irmã Maria, uma freira que criou Belardo num orfanato e agora actua como a sua secretária pessoal, e a quem Sorrentino chega a colocar como um “poder por trás do trono” do seu jovem papa. Silvio Orlando e Javier Cámara são muito bons nos papéis de dois cardeais de grande importância na série o hipócrita Secretário de Estado Voiello e o alcoólico e bondoso Gutierrez, que também é Cerimoniário Papal. Muito menos interessantes são as participações de actores como Scott Shepherd ou Ludivine Sagnier. Ambos prometiam muito e tinham boas personagens (um cardeal que mantivera uma relação amorosa com a mulher de um traficante e que parece ser bissexual, e a esposa beata de um guarda suíço que trai o marido com um padre e é recrutada para seduzir o novo papa), mas são ambos descartados pela série de maneira algo abrupta e desagradável, abortando os seus respectivos sub-enredos. Tecnicamente, a série fez maravilhas com o seu gordo orçamento de 47 milhões de euros: sem a bênção para filmar no Vaticano, os ambientes foram recriados em estúdio e são excelentes na quantidade de detalhes e na escolha dos adereços e mobiliário. Os figurinos e vestes usados são ricos em detalhes e poderiam ser perfeitamente usados por verdadeiros prelados e cardeais sem qualquer problema. Há ainda várias cenas feitas em locais de filmagem italianos muito bons e a cinematografia é agradável e nunca parece televisiva ou redutora. Os diálogos e discursos são muito bem escritos e intrigantes e a banda sonora contemporânea contribui, muitas vezes, para o surrealismo de certas cenas.
5000 Caracteres Restantes.