Pedro Quintão
Escrita em 13 de Março de 2025
Fui ver Mickey 17 com expectativas elevadas, pois Bong Joon-ho deu-nos Parasite, uma obra-prima que me deixou colado ao ecrã, e esperava algo do mesmo calibre. Mas, apesar de ter gostado, saí do cinema com a sensação de que faltou algo, como se a história não tivesse sido tão longe quanto poderia.
A crítica social está lá e é das melhores partes do filme. A ideia de sermos descartáveis, substituíveis, peças num sistema que nos usa até à exaustão sem qualquer apreço pela nossa individualidade, é inquietante porque já vivemos numa sociedade que funciona assim. E depois há a questão da neocolonização, que o filme explora de forma perspicaz: se um dia descobrirmos um novo planeta já habitado, voltaremos a ter o mesmo comportamento vil e lamentável que tivemos há centenas de anos atrás durante os Descobrimentos, porque está no ADN de muitos de nós sermos uma m*rda sem escrúpulos.
No entanto, Mickey 17 sofre com um tom inconsistente. Parece dividido entre ser um filme existencialista e uma comédia de ficção científica, mas nunca encontra o equilíbrio certo. Há momentos em que o humor funciona, mas há outros em que quebra completamente o impacto das ideias que o filme tenta explorar.
E depois há os vilões. Mark Ruffalo e Toni Collette são atores brilhantes, mas aqui as suas personagens são tão caricaturais que perdem qualquer ameaça. Em vez de figuras de poder assustadoras ou manipuladoras, são apenas ridículas, quase cartoonescas. Isso prejudica muito a narrativa porque transforma o conflito numa piada, retirando peso ao que podia ser um embate ideológico muito mais forte.
Dito isto, há aspetos a elogiar. Robert Pattinson continua a fazer escolhas interessantes e a sua interpretação transmite bem o conflito existencial da personagem. O mundo do filme também é visualmente cativante, com um design de produção que cria uma sensação autêntica de uma realidade distópica numa nave espacial.
No final, Mickey 17 não é um mau filme, mas fica aquém do que poderia ter sido. As ideias estão lá, a crítica social é pertinente, mas a execução falha em alguns momentos cruciais. Vale a pena ver? Sim, principalmente pelas reflexões que provoca. Mas quem espera algo ao nível de Parasite pode sair do cinema um pouco frustrado.